quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Mais um dia do insuportável verão carioca. Esse, bem típico: sol o dia todo, calor dos infernos e tempestade no fim da tarde... hora da volta pra casa. Assim foi... com alguns acontecimentos a mais que pioraram a minha situação.

Saí da academia ainda suando, sete horas da "tarde", o sol ainda dominando o céu, o asfalto quente como meio-dia e fui para a infernal estação das barcas. Explicar o calor surreal que terminou de me derreter toda, acho desnecessário. Dá pra imaginar um microondas (sem janelas) com 2.000 pessoas juntas cozinhando entre as paredes de concreto na hora do rush... Dispensável dizer mais.


Quando a barca chegava a Niterói o céu desabou. Assim, sem anúncio, sem se tingir de negro, sem raios nem vento. O céu desabou e pronto. Claro, em cima dos trabalhadores infelizes, como eu, que só tentavam chegar em casa após mais um dia de labuta.

Começou o desespero. A maioria dos niteroienses, prevenida, sacou os guarda-chuvas das bolsas e seguiram na chuva parcialmente protegidos, tendo as pernas molhadas pelo forte vento quente lateral que jogava as grossas gotas contra as roupas e peles. Os mais destemidos e desprevinidos, como é o meu caso, resolveram ultrapassar aqueles que ficaram parados na marquise da barca na esperança de que a chuva passasse nos próximos 5 minutos, e caminhar na chuva.

Saí então andando, desviando das pontas de guarda-chuvas que teimavam em espetar os olhos e testa no meio da multidão desvairada. Os grossos pingos de chuva faziam uma zoeira alucinante no telhado da estação Araribóia. Consegui me ver livre do mundo de gente desesperada, sozinha na calçada, vendo as pessoas correrem como baratas fugindo da tempestade de verão.

Curti as grossas gotas molhando minha pele, minhas roupas, meu cabelo, minha mochila, até que não havia mais nada seco em mim. Nada mesmo. Quando cheguei ao ponto de ônibus me espremi, encharcada, sob uma única marquise lotada de gente. Esperei. A chuva diminuía e engrossava, o vento forte sacudia as árvores soprando folhas e lixo direto para os bueiros. Eu me distraí vendo as pessoas correndo, os guarda-chuvas virando do avesso, os ônibus apinhados e com os vidros embaçados, as ruas enchendo. Alagamentos à vista.


Optei por usar um ônibus alternativo, que eu uso pouco, por não gostar da rota que ele usa pra chegar na minha casa, porém sabendo que normalmente ele é menos lotado do que a outra opção. Então subi, o ônibus maravilhosamente vazio (ainda) e escolhi meu lugar próximo à porta de saída. Resolvi me precaver para poder saltar quando chegasse a hora.

Aí meus problemas começaram. Escolhi um assento que ficava embaixo da saída de ventilação do teto do ônbus, ou seja, eu continuava na chuva, só que agora dentro do ônibus. Bom, considerando meu estado encharcado, não me importei em mudar de lugar. Garantir que eu sairia do ônibus era mais importante! Certamente.

O ônibus encheu, encheu, encheu, mas não lotou. Ótimo, pensei. Mas percebi que o coletivo não saía do lugar. De repente olhei pela porta de saída e vi o motivo. Uma cadeirante gritava loucamente que queria entrar no ônibus. Não acreditei! Os ônibus atualmente têm até um sistema horroroso lá que teoricamente é para dar acesso às pessoas em cadeiras de rodas, MAS NUNCA VI NENHUM FUNCIONAR. O motorista desceu para ajudar a mulher.

Toda torta, como se tivesse tido um AVC, com metade do rosto parado, as mãos encarquilhadas e os pés imprestáveis e menores do que o normal retorcidos sobre o aparador da cadeira, a mulher enrolava-se com o motorista dando comandos pra ele dirigir a cadeira de rodas dela e tentar enfiá-la no ônibus. O tal sistema só apitava alto, alto demais, no meu ouvido, e nada do elevadorzinho descer pra altura da calçada pro infeliz do motorista colocar a mulher pra subir.



Onde estava o acompanhante da criatura? O que estaria uma cadeirante fazendo às 8 horas da noite, naquela chuva torrencial no centro de Niterói? E por quê queria pegar o ônibus mais esculhambado da cidade? Enquanto eu pensava isso, apareceu a acompanhante da mulher na cadeira de rodas: uma velha tão caquética que mal conseguia andar. Ou seja, uma aleijada empurrando a outra.

O elevador do ônibus, sem parar de apitar desesperadamente, finalmente chegou ao nível da calçada e o motorista agora lutava para colocar ele próprio e a cadeira na base pra subir. A mulher gritava que ele tinha que dar ré na cadeira, e ele enfiando a cadeira de frente, subia, descia, e o troço apitando, e a chuva caindo, e as pessoas estressadas dentro do coletivo, mudas, todas odiando os longos minutos que ficamos ali parados assistindo ao show.

Finalmente dentro do veículo, o braço da cadeira de rodas desmontou e caiu no chão. O motorista virou para a apática e caquética senhora que acompanhava a cadeirante e perguntou se ela poderia colocar no lugar, ao que a imprestável disse o seguinte:
- Ah, não sei não!
E o pobre motorista ficou ali, seguindo as ordens da cadeirante, puxa, emburra, isso, encaixa, agora, assim, vai, não, não, iiiiiiiiiiiiissoooo. Até que conseguiu.
Ufa! A buzina do elevador finalmente parou de apitar no meu ouvido.

Eu devia ter saltado quando tive a chance, na hora que a cadeirante estava tentando subir...
Imaginei como seria a hora que a cadeirante resolvesse descer... O parto, parte dois! E a chuva apertou.
O trânsito começou a ficar truncado.

E de repente o ônibus parou de novo, a apenas metros do lugar onde estava parado há 20 minutos para a subida teatral da cadeirante. Motivo: a porta não fechava por causa do elevador de cadeira de rodas! O sistema havia emperrado, voltara a apitar e o motorista tinha descido de novo pra empurrar, na chuva, as portas com as mãos tentando fechá-las. Ninguém ajudou, mas o motorista conseguiu fechar. Imediatamente pensei:"Ele não testou se as portas vão abrir depois..."
Meu destino estava traçado: passar o resto da noite presa num maldito ônibus quente e úmido lotado de gente fedorenta e suada!


Mas tudo corria bem, apesar da chuva que me molhava mais. Pelo menos era uma entrada de ar pois os malucos dentro do coletivo resolveram fechar, todos, as janelas pra não se molhar. Hein?! Porra, e o calor?! Que maluquice!, eu queria gritar... Porra, e o CALOR?!!! Os vidros começaram a embaçar... Surreal. Mas eu pelo menos tinha a minha entrada de ar no teto...

Oooooh não!!! Um puto resolveu não querer se molhar (mais!) e fechou a única entrada de ar daquela lata ambulante lotada! Como asssssssssssssim???? O cara simplesmente fechou a tampa do ônibus, só porque estava molhando duas malucas sentadas ao meu lado... Mas eu nem tentei reclamar, via na cara dos malucos enlatados que eles aprovaram o fechamento da única via de troca de ar que aquela carroça tinha! EU REALMENTE DEVIA TER SALTADO QUANDO PUDE...

Agora as ruas eram rios e os carros começaram a parar. O ônibus seguia valente enfrentando a correnteza. Até que puxaram o sinal...
- Ô motorista, é a cadeirante que vai descer! Ô motorista, ajuda aqui, por favor. É a cadeirante que vai descer! - gritou a própria.


Pois é. No meio do córrego que se formou ao redor do estádio central da cidade a maluca da cadeirante e sua imprestável acompanhante queriam descer! E dana o elevadorzinho a apitar freneticamente de novo e o motorista apareceu lá na calçada enxarcado, tentando fazer a cadeira agora sair da porcaria do ônibus. Eu mereço!!!

- Solta o freio! - gritava a mulher com AVC - Isso... Agora vai de costas, empurra, assim, vai, isso. - comandava ela. E a outra imóvel e muda olhando. Eu já nem olhava mais, pois elas estavam atrás de mim e eu ouvia tudo - e com close especial - , e só olhava pra frente vendo todas as outras pessoas assistindo à triste cena. Tempos depois, desceram. A cadeirante se foi. Ufa!

E segue o ônibus... Mas opa... obviamente as portas não se fechavam de novo!!! Surreal!!! Eu virei o pescoço e podia ver o rio de lama e água da chuva passando pelas portas abertas do transporte. O ônibus começou a apitar e apitar, pois os moderníssimos veículos não andam mais de portas abertas!!!

A água entrava pelos degraus da porta de saída do ônibus enquanto o motorista tentava parar em um local com menos correnteza. Desceu novamente do veículo e dessa vez socava as portas traseiras para fechar na mão, como tinha feito da primeira vez. A tempestade caindo... Água, muita água... E ele conseguiu! Só torci pra ninguém resolver descer tão cedo.


Horas pra chegar em casa e muito perrengue...
Somar transporte público, acessibilidade de portadores de deficiência, hora do rush e tempestade de verão só pode dar merda!

Corri pro chuveiro (de água quente, como não poderia deixar de ser nesse verão implacável) pra ver se meu dia acabava logo...

ODEIO O VERÃO CARIOCA.
ODEIO IR PRA CASA NO PERRENGUE.
ODEIO TRANSPORTE PÚBLICO NO BRASIL!


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